
Foi o meu amigo Ribeiro, logo de manhã, a dar-me a notícia, que o Movimento das Forças Armadas, liderado pelo general Spinola, estava a tomar o poder político pela força das armas. Não dei importância à notícia; já tinha havido o golpe falhado do 16 de Março nas Caldas da Rainha.

Só reagi com alegria ao golpe militar, quando ao logo do dia e nos dias seguintes, o Le Monde, a radio Europe 1 e todos os jornais e cadeias de televisão francesas noticiaram a onda de euforia que tomava conta dos lisboetas, colocando “oeillets rouges” na ponta das espingardas, empunhadas pelos militares revoltosos. Da aliança espontânea da população com os capitães do MFA nasceria a Revolução dos Cravos!
Que resta dessa utopia? A Liberdade? Vi há dias uma foto do Otelo, um dos ícones da revolução. O rosto dele, tão diferente do jovem comandante, robusto e senhor das armas, fez-me imensa tristeza! O 25 de Abril está assim, como ele, um velho acabado! Os “filhos de Abril” são poucos e parecem ter outro tipo de preocupações.
Este grupo da JS, além do dos profs, era aquele pelo qual eu mais esperava! Por entre as bandeiras amarelas e mensagem revendicativa de casamentos homossexuais, esperava ver o JR, ex-aluno que, juntamente com outros colegas, levei ao Parlamento Europeu em Bruxelas. Parece que ainda vejo a alegria estampada no seu rosto por ter ouvido o discurso de Zapatero. Não o vi, fiquei triste.
Simpatizo imenso com os bascos. Foi dito há dias, pela polícia de combate ao terrorismo, que o dirigente máximo da ETA tinha estado em Portugal, para criar uma base da organização, sem sucesso. Como simples cidadão, incapaz de pagar numa arma, não acredito que os movimentos nacionalistas bascos ou galegos não tenham santuários do lado de cá da fronteira.
A independência do Sahara Ocidental, reivindicada pela Frente Polisario, será uma causa perdida? Timor-Leste teve mais sorte. Teve Clinton como presidente na Casa Branca e Portugal, antiga potência administrante, durante a ocupação indonésia manteve a chama da independência acesa nas Nações Unidas.
A manifestação acabou antes das 18 horas. Fotografava o relógio na esquina da Rua da Betesga com o Rossio, quando o JR de Cascais e alguns amigos, com as bandeirinhas amarelas da JS já meio enroladas, se cruzaram comigo. Fiquei satisfeito. Nem tudo vai mal no Reino da Dinamarca!

Apesar de milhares de portugueses continuarem a emigrar devido ao seu país não lhes oferecer condições de uma vida digna, Portugal converteu-se também num país imigrantes oriundos das antigas colónias africanas, do Brasil, da Europa de Leste, da Índia, do Bangladesh, etc. Um sikh paquistanês, se vender 50 cravos vermelhos, a um euro cada, ganhará o suficiente, se calhar, para sustentar a família, na província de Lahore. Os imigrantes reivindicam igualdade de direitos. Será pedir demais?
Mas a igreja também é célebre por daí partirem para o Rossio as procissões do Tribunal do Santo Ofício, para julgar, torturar e queimar na praça pública aqueles que a Inquisição considerava inimigos da Igreja. Foram séculos de obscurantismo que privaram os portugueses de liberdade religiosa e mancharam a imagem de Portugal na Europa.
Como comunidade maioritária nesta cidade, há perto de mil anos, a Igreja Católica reconhece profundamente manchada a sua memória por esses gestos e palavras tantas vezes praticados em seu nome, indignos da pessoa humana e do Evangelho que ela anuncia."
Oceanos de Paz, 26 de Setembro de 2000
José, Patriarca de Lisboa
Lisboa, Cidade da Tolerância
Mandou a CML escrever em diversas línguas, no muro do largo, receosa da imagem negativa que o monumento em memória das vítimas do massacre de 1506 poderia dar dos lisboetas aos turistas.
Comemorar o Dia da Liberdade para quê?
Para os arredados das altas esferas do poder - minorias étnicas, religiosas e políticas; para homossexuais, imigrantes e jovens com comportamento desviante aos valores dominantes - a liberdade é um instrumento fundamental para reivindicar o direito à diferença.
Mas para que serve a existência de liberdade a um sem-abrigo deitado ao relento no Largo de São Domingos? Para que serve aos familiares das vítimas do desastre da Ponte de Entre-os-Rios, a liberdade de recorrerem à justiça se o tribunal, ao fim de tantos anos, dá como provado que não houve culpados e condena esses familiares a pagar os custos do processo judicial?
Depois da passagem pelo Largo de São Domingos, onde estará a nascer um Portugal multi-cultural, nada melhor, para terminar o Dia da Liberdade que uma ginginha, mesmo sem elas, numa das tascas do típico português pançudinho e de bigodinho.